Sinceramente, fico um pouco desanimada quanto leio textos, reflexões ou ouço discursos sobre as mudanças propostas para o novo ano que se inicia. Perder peso, entrar na academia, começar a namorar, largar aquele vício… Sai ano, entra ano, e as promessas se desfazem como as ondas do mar. Você já conseguiu cumprir algum desses propósitos que fez no Reveillon? Parece que o ser humano tem a necessidade de marcar etapas, segmentar a própria história, ter a oportunidade de um recomeço declarado. Mas, cada vez que promete e não dá seguimento, surge frustração e desânimo, e a esperança de mudar fica abalada. Quando atendo pessoas que estão lutando contra vícios, um dos trabalhos mais difíceis é recuperar a esperança da família. Depois de tantas promessas e tentativas não aproveitadas, é difícil acreditar que dessa vez pode realmente dar certo.

E porque somos assim? Porque fazemos propósitos e não conseguimos cumprir? Porque sonhamos com uma mudança mais rápida e andamos tão lentamente? Todos nós temos motivos para sermos como somos no hoje. Nossas histórias, nossos dons, nossa personalidade, nossos traumas, as curas que já permitimos Deus fazer em nós… Tudo isso nos construiu (pelo bem ou pelo mal) para sermos o que somos, para chegarmos onde estamos.

E por isso, mudar não é algo que pode vir de fora para dentro (como uma simples promessa do que gostaria de fazer). Mudar é um movimento interior, que exige uma autoavaliação verdadeira onde, vendo o que nos desagrada, somos motivados a buscar ser diferente. Estamos caminhando, em construção. Somos obras inacabadas, que podem permitir ou não que o oleiro nos molde com maior ou menor rapidez, de acordo com a dureza do nosso barro, de acordo com o apego que temos ao que já nos tornamos. Uma vez vi num programa de TV que o barro reaproveitado (quando se desfaz um vaso já trabalhado) é mais maleável do que quando foi modelado pela primeira vez. Mas, fico imaginando, como deve ser difícil para um vaso abrir mão do que já tem. Ele já foi amassado, modelado, queimado no fogo, pintado, tem função definida… E o oleiro o desfaz para começar do zero, e fazê-lo novo. Não é fácil se abrir à mudança, recomeçar. Tem que ser uma obra de Deus! Só há alegria em ser remodelado quando se confia que o Oleiro, em Sua perfeição, pode nos fazer melhor, pode extrair de nós mais do que já fizemos. É a confiança na experiência do Oleiro que faz com que o vaso se permita ser num primeiro momento destruído. Quando se conhece com quanto amor e zelo, com quanta perfeição e perseverança Aquele Oleiro costuma tratar do seu pobre barro, é possível se render ao novo. A esperança do salmista nos faça rezar junto com ele: “O Senhor completará o que em meu auxílio começou. Senhor, eterna é a vossa bondade: não abandoneis a obra de vossas mãos.” (Sl 137,8).

Acredito firmemente que a mudança do mundo só acontecerá se for um movimento interior, uma conversão pessoal ao verdadeiro Amor. Digo isso olhando para o mundo externo (política, corrupção, vícios, violência), mas também falando sobre nossas mudanças mais simples, mais cotidianas. Nossos propósitos só terão força e sentido quando forem uma resposta ao que Ele pede para mim. Temos grandes santos (doutores!) que nos ensinam isso. Santo Agostinho viveu uma longa e dolorosa luta para alcançar o equilíbrio sexual. Costuma-se atribuir a ele a frase: “Dai-me continência e castidade, mas não agora”. Depois de tantas tentativas, ele sentiu de Deus o chamado ao sacerdócio, e então, conseguiu alcançar o propósito de santidade que tanto queria. Santa Teresa D´Ávila, já como freira, viveu por muitos anos a luta para deixar as conversas fúteis e os presentes que recebia nos pátios do convento. Naquele tempo, os conventos eram locais frequentados pela alta sociedade como ponto de encontro e conversa. E ela só conseguiu se livrar desse hábito que lhe roubava tempo e atenção depois de uma oração, feita diante de Jesus crucificado. Ela perguntou: “Senhor, quem vos colocou aí?”. E ouviu interiormente: “Foram tuas conversas no parlatório que me puseram aqui”.A mudança veio desse encontro com Deus.

Não quero lhe desanimar de fazer propósitos na virada de ano. Quero apenas abrir seus olhos para entender que eles são inúteis se não partirem do seu interior, se não brotarem do desejo de Deus para você. Qual mudança Deus pede de mim para 2014? Qual sonho Ele reservou para ser concretizado neste ano? Em qual projeto devo me empenhar? Qual é o presente que Ele reservou para mim? Que a força do Espírito Santo torne seus propósitos verdadeiros e cristãos, e lhe dê força para concretizá-los! Feliz 2014!

Roberta Lima

Coordenadora Estadual do Ministério de Música e Artes do Espírito Santo

Grupo de Oração Imaculada Mãe de Deus

Ministério de Comunicação Social Renovação Carismática Católica de Brasília